Metodologia

Por muito tempo, as pessoas analfabetas foram consideradas incapazes de ter criatividade e de participar ativamente dos processos educativos. Acreditava-se que os jovens e adultos analfabetos não tinham nada para ensinar, não tinham experiências de vida para transmitir e eram apenas indivíduos passivos, que não pensavam sobre a própria vida. A consequência desta visão levou, muitas vezes, a se pensar a educação dos jovens e dos adultos de forma completamente centralizada nos alfabetizadores. O alfabetizador então preparava todas as aulas, todo o programa educativo, todo o material didático visando a “curar” o analfabetismo, como se este fosse uma doença e a alfabetização um remédio. Aplicada a receita, o remédio faria o efeito e pronto. Todo o problema estaria resolvido.

Entretanto, há quase 50 anos, as contribuições de Paulo Freire e as práticas do MEB demonstraram que o caminho para a educação de jovens e adultos não era esse.

Desde o início de sua história, as ações do MEB em educação de jovens e adultos consideram a alfabetização um instrumental para ser utilizado pelo alfabetizando e visam ao desenvolvimento da sua consciência crítica, tornando o alfabetizando/educando/alfabetizando sujeito e não objeto de sua transformação.

Consideramos, portanto, que a alfabetização, no MEB, é um meio para o desenvolvimento dos jovens e adultos e não um fim em si mesmo.

Podemos, assim, afirmar que a alfabetização será um dos instrumentos que o levará a agir e refletir sobre sua existência, sua produção, sua comunidade social, sua cultura, seu ambiente, ou seja, a alfabetização é um meio que jovens, adultos e idosos poderão utilizar para dirigir seus processos de mudança.

Ver, julgar e agir

Há muito tempo atrás foi pensado um modo de fazer acontecer ações de educação que tivessem por objetivo as mudanças: mudança da vida, do mundo, das relações…

A Igreja Católica no Brasil adotou o chamado método “ver, julgar e agir” e é este método a base que adotamos para fazer nossa proposta de alfabetização acontecer.

E o que entendemos por ver, julgar e agir?

Este método consiste em uma sequência de etapas de atividades que serão desenvolvidas em conjunto – grupo de jovens e adultos alfabetizandos, alfabetizador e, muitas vezes, a comunidade em que o grupo está inserido.

O Conjunto Didático Saber, Viver e Lutar

O método ver, julgar e agir é a base sobre a qual se assenta nosso processo de alfabetização. A partir daí construímos o Conjunto Didático Saber, Viver e Lutar.

Para sermos coerentes com nossos objetivos e nosso método, o MEB resolveu centrar sua atenção no que chamamos de tema gerador.

O que é um tema gerador?

Um tema gerador é um assunto que faz parte da vida do jovem e do adulto que está em processo de alfabetização e no qual ele tenha interesse direto, que estimule a curiosidade, que possa gerar conversas e troca de experiências e, mais importante, que colabore na compreensão e no enfrentamento de desafios de seu dia a dia.

Foram selecionados 26 temas geradores que estão expressos em 26 lições de alfabetização. Estes temas geradores são apresentados através de uma história, em que os personagens podem ser facilmente identificados com pessoas do cotidiano do alfabetizando. Os personagens vivem situações comuns da vida em família, no trabalho, no grupo de amigos, discutem problemas, têm dúvidas e anseios, têm problemas e alegrias… Conversam, concordam, discordam…

A ideia básica do Conjunto Didático Saber,Viver e Lutar, com seus temas geradores, sua história e seus personagens é fazer com que o processo de alfabetização seja significativo, isto é, faça sentido para o alfabetizando e não seja simplesmente alguma coisa da escola, mas sim, da sua própria vida.

Cada uma das 26 lições apresentadas no Conjunto Didático é composta por:

  1. Texto de Leitura: são 26 lições que formam, cada uma, uma história. Esta história traz, em seu conteúdo, diferentes temas geradores que deverão ser a base do processo de alfabetização;
  2. Cartaz Gerador: acompanha cada lição e reflete o tema gerador proposto. É sempre a primeira etapa de exploração do tema e deve estar sempre exposto em sala de aula;
  3. Vamos conhecer a realidade? Corresponde, no método, à etapa do VER e apresenta dados, informações, notícias, aspectos legais e outros que subsidiam o alfabetizador na discussão do tema gerador;
  4. Vamos refletir? Corresponde, no método, à primeira etapa do JULGAR e consiste em uma análise de teor mais filosófico a respeito do tema gerador, que apoiará o alfabetizador na condução dos debates sobre os temas;
  5. Vamos debater? Corresponde, no método, à segunda etapa do JULGAR e consiste em um roteiro de perguntas que sugerem um debate que auxiliam o alfabetizador a estabelecer uma relação de diálogo e questionamento em relação ao tema gerador;
  6. Vamos fazer e acontecer? Corresponde, no método, ao AGIR e trata das mudanças propostas, ou seja, trabalhar com o letramento (aprender a ler e escrever), com a numerização (aprender as operações matemáticas básicas) e trabalhar coletivamente em projetos de intervenção na realidade. Nesta etapa são apresentados:
    • componentes linguísticos específicos de cada lição: são as famílias silábicas e outros componentes de nossa língua que são introduzidos a cada lição;
    •  sugestões de atividades de letramento e matemática: pelo menos uma atividade é sugerida em cada lição.
    • Atividades complementares: sugestões de dinâmicas de letramento e matemática;
  7. Chamada Geral: são apresentadas, ao longo das lições, 5 sugestões de ação conjunta voltadas ao desenvolvimento de projetos de intervenção na realidade do alfabetizando, no sentido de completar o ciclo do método ver, julgar e agir.